A coragem de publicar
O próximo corajoso...
Publiquei algumas crônicas e descobri quantas pessoas também escreviam — até o medo fazê-las parar.

Comecei a escrever despretensiosamente. Comecei em um momento de sofrimento: UTI com meu filho e a cabeça a mil, quando nada faz muito sentido. Nesse momento, o medo de escrever e ser julgado perde o sentido, e a escrita acalma nossos sentimentos.
Foi um momento de focar todo o pensamento em alguma situação cotidiana, desligar do resto e ficar presente na escrita.
Coloco entre parênteses porque não me considero escritor, nem mesmo sei que gênero escrevo. Dizem que é crônica, e uso o termo apenas para ser identificado.
De imediato, recebi o apoio da esposa, que está sempre acreditando em mim.
Logo no início, decidi compartilhar com meu pai, leitor voraz.
Veio o incentivo paterno, aquele que não vale muito, pois vem cheio de influência, mas ajuda — e muito.
Depois, dividi com um amigo que escrever estava me fazendo bem, e ele pediu para ler. Mandei, e veio mais um apoio. Depois, mais um colega. E assim foi com poucas pessoas.
Escrevo para mim, não preciso dividir, mas também por que não? Se uma pessoa achar o texto legal, já valeu a pena.
É só eu mostrando um pouco de mim, sendo eu em algum lugar acessível para quem quiser, para quem se identificar.
Um amigo compartilhou o meu texto com outro. Por que eu não poderia?
Criei coragem e postei no LinkedIn, minha única rede social naquele momento. Certamente não é o lugar mais indicado ou onde se queira ganhar público, mas decidi que ali, eu sem Instagram, seria um lugar legal para mostrar quem sou, sem pensar no julgamento alheio e também sem ambição nenhuma. Apenas registrando: tenho um pequeno blog em que escrevo isso. Se quiser olhar, está lá.
E as reações foram, no mínimo, interessantes.
A primeira reação foi ganhar dois livros de um colega no dia seguinte. Cheguei a uma reunião séria, cheia de gente, e um colega veio até mim e me deu dois livros. Fiquei sem entender. Achei que eram para todos ou alguma brincadeira.
Foram segundos de dúvida, sem saber se agradecia ou ficava constrangido, até que ele falou:
— Bah, que legal tua postagem no LinkedIn. Tu sabes que eu escrevia também? Escrevia bastante e parei.
Nesse momento, caiu a ficha. Ele viu minha postagem e não avaliou meu texto, mas a coragem de eu escrever e publicar. Foi além: contou seu caso pessoal, que também era um “escritor” e que, pela falta de coragem, parou.
Respondi:
— Tem que escrever, meu. Escrever e postar. Vale a pena.
Pronto, já valeu a pena ter postado. Ganhei dois livros: A coragem de ser imperfeito e Niksen: Abraçando a arte holandesa de não fazer nada.
Nunca ganho nenhuma rifa. Já estou no lucro, pensei.
Lendo o primeiro livro, já entendi melhor que publicar minhas crônicas nada mais era do que mostrar minha vulnerabilidade. Entendi o presente e a frase do meu colega.
Recebi um e-mail de um colega antigo de uma pós-graduação que fiz há mais de oito anos. Que coisa, passa rápido o tempo.
Ele não só entrou no site como mandou um e-mail com uma “dica” para eu colocar um trecho da crônica na página principal e falou para eu seguir.
Que gesto. Era uma figura de quem eu gostava muito, mas com quem pouco falo, colega de alguns anos de uma pós-graduação. Mais uma vez, valeu a pena. Recebi notícias dele e vi a preocupação que teve em abrir o site, ler e mandar uma mensagem. Olha todo o movimento que gerou o simples ato de eu publicar.
Além deles, mais alguns colegas me olharam e falaram:
— Bah, que legal. Tu sabes que eu escrevia também?
E eu respondi:
— É isso. Tem que escrever e publicar ou dividir com quem quer que seja. Escrever faz bem.
Todas as pessoas tinham em comum o sentimento de que escrever era uma coisa boa para elas, mas provavelmente o medo do julgamento ou a autocrítica as fez parar. É uma tarefa ingrata: escrevemos para nós, isso nos faz bem, vem o receio de dividir e acabamos parando de escrever.
Perdemos algo que nos faz bem. Esse pequeno ciclo, que girou entre eu começar a escrever movido pelo momento, compartilhar e incentivar alguém a voltar a escrever, é algo despretensioso, mas mostra como vale a pena seguir escrevendo.
Se alguém ler e achar legal, valeu!
Se alguém ler e voltar a conversar comigo, valeu!
Se alguém ler e começar a escrever, valeu!
Se alguém ler e não gostar, parou de ler!
Veremos se, daqui a cinco anos, não sou eu dando dois livros a algum “corajoso”.
Veremos se, daqui a cinco anos, não sou eu dando dois livros a algum “corajoso”.
Entre a crônica e você
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