A dúvida do cumprimento
Bom te ver!
Um rosto conhecido, nenhuma lembrança e uma luta silenciosa entre o cumprimento e o constrangimento.

Vi um rosto conhecido. Sou bom fisionomista e tive a impressão de que já o tinha visto e até conversado com ele. A voz também era conhecida.
Nome? Nem ideia.
Amigo? Claro que não.
Conhecido? Também não.
Provavelmente alguém que brincou com meu filho em algum lugar ou pegou elevador comigo.
Mas eu sabia que já o tinha visto e que não tínhamos falado muito. Quer dizer, “sabia” é uma palavra forte.
Foi uma luta interna. Olhei umas três ou quatro vezes para trás. Cheguei a dar um leve aceno de cabeça. Aqueles gestos suaves para dar abertura para ele me reconhecer e tomar a iniciativa do cumprimento.
Queria dar o tradicional:
— Oi, tudo bem?
Mas achei que seria mais constrangedor do que passar por antipático. Minha vontade inicial é sempre falar:
— Opa, bom te ver!
No fim, quase sempre deixo o constrangimento ganhar.
Pensando agora, talvez eu nem o conheça. Deve ser um daqueles colegas aleatórios de elevador. E dos que não conversam sobre o tempo.
Lembrei também das pessoas que já me cumprimentaram e me fizeram pensar: “Não conheço!”.
Quem nunca esteve no mercado, ou em qualquer outro lugar, e alguém chegou:
— Opa, tudo bom?
Tu cumprimenta, responde simpático e segue. Aí a pessoa que está ao lado pergunta:
— Quem é?
— Não sei.
Será que não era justamente um desses rostos perdidos que tinha me chamado? Será que ele também ficou pensando de onde me conhecia?
Mas a gente nunca acha ruim esse momento. Nunca é constrangedor. É sempre engraçado. No máximo, a pessoa pensa que tu é meio louco.
Ou não, né?
Vou mudar.
— Opa, bom te ver! Tudo bem?
Será que ele também ficou pensando de onde me conhecia?
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