A cidade antes do clássico
A carne acabou!
Dois açougues, um churrasco e uma cidade inteira respirando diferente antes do Gre-Nal.

Quinta-feira, 18h30min. Decidi fazer um churrasco. Gosto de fazer churrasco em dias aleatórios. Embora não fosse o caso, como verás.
Na verdade, desde que cheguei ao trabalho pela manhã já existia aquele clima:
— É hoje!
Cheguei ao açougue que tem como propaganda: “Carne nova todos os dias”. Para minha surpresa, não tinha carne. Não sobrou nada que se prestasse a um assado!
O açougueiro me olhou e disse:
— Já não tem mais nada, amigo!
Fui tentar mais um.
No caminho, trânsito agitado, muitos carros com bandeiras dos times. Passava alguém com camiseta na rua e logo vinha uma buzina:
— Vamoooo!
As academias estavam mais vazias. O pessoal saía mais cedo do trabalho. Havia um olhar de tensão em alguns. A cidade respirava diferente.
Cheguei ao segundo açougue. Tinha alguma coisa que se prestasse. Salvou o churrasco.
— Que coisa! Um Gre-Nal acaba com tudo — disse o açougueiro.
Cheguei a tempo em casa. Foco total para deixar a carne pronta antes do jogo.
As crianças gostam da função. É tradição familiar: o pai nervoso, uma comida diferente e todo mundo dormindo mais tarde. Para elas, a desculpa do jogo é a bagunça.
E o ritual começa muito antes do jogo: fazer o churrasco, acelerar as coisas para que todo mundo consiga sentar junto e comer antes ou na hora do jogo.
Um mais distraído pergunta:
— Vamos ver um filme em família?
E outro já responde:
— Não, vamos ver o jogo!
E ele não fica triste por não ser dia de filme. Sabe que o jogo se repete e acaba sendo um dia a mais de diversão. Já valoriza o ritual.
Tem aquele que gosta mais de futebol, que pergunta tudo, até antes de acontecer. Fala com o narrador e pergunta exatamente o que ele está contando:
— Quem levou amarelo?
Ao fundo, o narrador fala quem foi, mas não é possível compreender.
Muitas perguntas, poucas respostas. Curiosidade alta e ansiedade.
Tem aqueles que não dão bola. Ficam brincando nos cantinhos e aproveitam que vão dormir mais tarde. Sempre passam na frente da TV e se jogam no chão quando são lembrados disso.
Esses se divertem mais e não têm o nervosismo da torcida.
A mãe fica feliz com a família reunida e esquece a bagunça. Todos juntos.
E quando sai o gol? Aí, sim, até quem não gosta grita e comemora. Família pulando e cantando. Só alegria aqui e em alguns vizinhos.
No dia seguinte, a carne voltou para o açougue.
Quem ganhou apareceu sorrindo, ouvindo tudo sobre futebol.
Quem perdeu?
Cadê?
Sumiu…
Quem perdeu? Cadê? Sumiu…
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