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Crônica 045 min de leitura

Memórias em movimento

Falta muito?

Uma viagem de carro, a ansiedade da chegada e as memórias que ficam no caminho.

Ilustração de uma estrada vista de dentro do carro, com malas e lembranças sugeridas no retrovisor.
Ilustração original para Falta muito?

Como é interessante a viagem de carro.

Sempre achei sensacional a questão de acordar em um lugar e dormir em outro, pensando que, nesse meio-tempo, alguém nem tenha saído de casa e eu já mudei de DDD.

Aí, pensando em avião, fica mais ousado ainda: acordei em Porto Alegre, almocei em São Paulo.

Isso é demais.

Mas o carro é algo mais sensível. Entramos nele e vamos vivenciando aquela mudança de cidades quadro a quadro — frame a frame, para ti que gosta de inglês.

Entro no meu carro: eu, minha mulher, um filho só dessa vez e nossas 50 malas e sacolas diferentes.

E vamos lá.

Rumo a horas de viagem, olhando a mudança de cenário em quilômetros, bem devagar, pela janela. Independentemente da velocidade, vamos acompanhando o destino mudar.

E como demora a ida, seja para onde for.

Com GPS, mais ainda. Fica mostrando aquele tempo até a chegada, o que tira toda a glamourização de uma viagem de carro.

Aí, para evitar, tiro do Waze e coloco no Spotify.

Não adianta.

Minha cabeça fica matematicamente contando o tempo e vendo a estimativa.

A ansiedade.

Aí vamos para as paradas nunca necessárias, mas sempre necessárias.

Que loucura.

Vai ao banheiro, come algo que custa três vezes mais naquele lugar, mas cujo sabor também é três vezes melhor.

Retorna para o carro, volta para o Waze, calcula o tempo que perdemos na parada e vamos de novo.

Seguimos na viagem. Um pouco de discussão pelo ar-condicionado, música escolhida — se bem que, no nosso caso, não tem muito isso.

E, com as crianças, sempre vem:

— Falta muito? Quanto tempo?

Lembro que, quando criança, criei a estratégia de perguntar em que cidade estávamos para ir calculando o tempo.

Decorava as cidades de Rio Grande a Gramado e já sabia quanto faltava.

Momento de ansiedade pela chegada, mas a lembrança está aqui.

Ficava no fundo espiando a velocidade que meu pai dirigia.

Agora sou eu no volante, escondendo a velocidade que dirijo.

Às vezes.

A viagem de carro também me gera uma ansiedade para sair. Aprendi com um amigo especial que a pressa é para sair, e não para chegar.

Esse amigo já seguiu a estrada da vida.

Que saudades.

Pensando em tudo, vejo que o melhor não é o destino.

Talvez seja a viagem.

As memórias que ali se criam, no apertado interior do carro, talvez sejam mais importantes do que o caminho.

Lembro de tudo isso.

Também lembro de passarmos sempre no mesmo lugar e alguém repetir, pela milésima vez:

— Ali aconteceu tal coisa.

Hehe.

Hoje me vejo fazendo isso.

A viagem de carro não tem igual.

São memórias, brigas, cheiros e sujeiras que só o carro proporciona.

Agora minha família vai ter que aguentar.

Minha próxima invenção vai ser uma viagem longa e de carro.

Te prepara, motorhome.

Talvez o melhor não seja o destino. Talvez seja a viagem.

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