Memórias em movimento
Falta muito?
Uma viagem de carro, a ansiedade da chegada e as memórias que ficam no caminho.

Como é interessante a viagem de carro.
Sempre achei sensacional a questão de acordar em um lugar e dormir em outro, pensando que, nesse meio-tempo, alguém nem tenha saído de casa e eu já mudei de DDD.
Aí, pensando em avião, fica mais ousado ainda: acordei em Porto Alegre, almocei em São Paulo.
Isso é demais.
Mas o carro é algo mais sensível. Entramos nele e vamos vivenciando aquela mudança de cidades quadro a quadro — frame a frame, para ti que gosta de inglês.
Entro no meu carro: eu, minha mulher, um filho só dessa vez e nossas 50 malas e sacolas diferentes.
E vamos lá.
Rumo a horas de viagem, olhando a mudança de cenário em quilômetros, bem devagar, pela janela. Independentemente da velocidade, vamos acompanhando o destino mudar.
E como demora a ida, seja para onde for.
Com GPS, mais ainda. Fica mostrando aquele tempo até a chegada, o que tira toda a glamourização de uma viagem de carro.
Aí, para evitar, tiro do Waze e coloco no Spotify.
Não adianta.
Minha cabeça fica matematicamente contando o tempo e vendo a estimativa.
A ansiedade.
Aí vamos para as paradas nunca necessárias, mas sempre necessárias.
Que loucura.
Vai ao banheiro, come algo que custa três vezes mais naquele lugar, mas cujo sabor também é três vezes melhor.
Retorna para o carro, volta para o Waze, calcula o tempo que perdemos na parada e vamos de novo.
Seguimos na viagem. Um pouco de discussão pelo ar-condicionado, música escolhida — se bem que, no nosso caso, não tem muito isso.
E, com as crianças, sempre vem:
— Falta muito? Quanto tempo?
Lembro que, quando criança, criei a estratégia de perguntar em que cidade estávamos para ir calculando o tempo.
Decorava as cidades de Rio Grande a Gramado e já sabia quanto faltava.
Momento de ansiedade pela chegada, mas a lembrança está aqui.
Ficava no fundo espiando a velocidade que meu pai dirigia.
Agora sou eu no volante, escondendo a velocidade que dirijo.
Às vezes.
A viagem de carro também me gera uma ansiedade para sair. Aprendi com um amigo especial que a pressa é para sair, e não para chegar.
Esse amigo já seguiu a estrada da vida.
Que saudades.
Pensando em tudo, vejo que o melhor não é o destino.
Talvez seja a viagem.
As memórias que ali se criam, no apertado interior do carro, talvez sejam mais importantes do que o caminho.
Lembro de tudo isso.
Também lembro de passarmos sempre no mesmo lugar e alguém repetir, pela milésima vez:
— Ali aconteceu tal coisa.
Hehe.
Hoje me vejo fazendo isso.
A viagem de carro não tem igual.
São memórias, brigas, cheiros e sujeiras que só o carro proporciona.
Agora minha família vai ter que aguentar.
Minha próxima invenção vai ser uma viagem longa e de carro.
Te prepara, motorhome.
Talvez o melhor não seja o destino. Talvez seja a viagem.
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